Como fazer um currículo: o que é regra e o que é palpite
A estrutura que funciona, em ordem, e a linha entre o que está documentado sobre currículo e o que só é repetido. Cada regra aqui vem com a fonte dela.

Um currículo tem seis blocos, nesta ordem: contato, um resumo curto do que você faz, experiência da mais recente para a mais antiga, formação, idiomas e habilidades. Uma coluna só, mês e ano em todas as datas, e um arquivo com texto de verdade dentro. Esse é o currículo inteiro, e dá para montar em uma tarde.
O resto desta página existe por outro motivo. Quase tudo que se repete sobre currículo no Brasil não tem fonte publicada atrás. Uma parte pequena tem, e é justamente a parte que quase ninguém cita. Aqui as duas estão separadas, com o link de cada uma.
Contato: cinco linhas, e um bloco inteiro que pode sair
- Nome, do jeito que você assina.
- Cidade e estado.
- Telefone com DDD.
- E-mail, num domínio que você controla.
- LinkedIn, só se o perfil estiver atualizado.
Rua, número e CEP ficam de fora. Ninguém vai te mandar carta.
Foto, idade e estado civil são costume no Brasil, e nunca foram exigência. A Lei nº 9.029/1995, no artigo 1º, proíbe "a adoção de qualquer prática discriminatória e limitativa para efeito de acesso à relação de trabalho, ou de sua manutenção, por motivo de sexo, origem, raça, cor, estado civil, situação familiar, deficiência, reabilitação profissional, idade, entre outros". A CLT, no artigo 373-A, inciso I, veda até publicar anúncio de emprego que faça referência a sexo, idade, cor ou situação familiar. O empregador já não podia decidir por esses dados, e o currículo padrão os entrega de graça no alto da primeira página. Quando a vaga é fora do Brasil, esse bloco muda de tamanho: veja o que sai do currículo em inglês.
O resumo do topo, no lugar do "Objetivo"
"Objetivo: atuar em empresa sólida" descreve o que você quer. Quem lê precisa saber o que você faz.
Antes:
Objetivo: atuar na área de logística em empresa sólida, aplicando meus conhecimentos e buscando crescimento profissional.
Depois:
Analista de operações, 6 anos em logística. Cuido da rotina de faturamento e do inventário de um centro de distribuição no interior de São Paulo.
Falta um número na segunda versão, e ele não pode sair da minha cabeça. Tem que sair da sua. A pergunta que precisa de resposta antes de qualquer número aparecer é essa: quantos pedidos por mês, em quanto tempo, e o que mudou depois que você assumiu? Se você sabe, escreva. Se não sabe, a frase fica vaga e verdadeira, o que é uma posição melhor do que parece.
Experiência: uma ideia por linha
Cada linha responde duas coisas: o que você fez, e o que mudou por causa disso. Se a linha tem duas ideias, ela vira duas linhas.
Antes:
Responsável pelo controle de estoque, conferências e melhorias de processo.
Depois:
Reorganizei a conferência de inventário do centro de distribuição e reduzi a diferença entre estoque físico e sistema de [de quanto para quanto, medido em quê?].
Aquele colchete não é um descuido de edição. É o formato honesto de uma linha que ainda não tem número. Você preenche depois, ou deixa sem.
Nunca escreva um número que você não consegue sustentar em voz alta. Não é uma questão de ética abstrata. A entrevista é, na prática, uma pessoa lendo o seu currículo em voz alta e perguntando de onde saiu aquele número. Uma linha vaga e verdadeira sobrevive à pergunta. Uma linha específica e falsa não sobrevive, e você fica com ela na mão na pior hora possível.
Datas: mês e ano, e sem esticar
Escreva "mar/2021 a ago/2023", não "2021 a 2023". Só o ano coloca um contrato de dois meses e um de onze no mesmo formato, e quem lê muitos currículos percebe isso na hora.
Não estique uma data para tapar uma pausa. O estudo Hidden Workers: Untapped Talent, da Harvard Business School com a Accenture, registra na página 22 que quase metade das empresas pesquisadas descarta automaticamente um currículo com intervalo maior que seis meses entre empregos, com base nesse dado sozinho. Esticar a data não vence esse filtro e ainda cria um problema novo, porque a data errada reaparece na checagem de referências. O que realmente acontece com uma pausa está aqui: pausa na carreira no currículo.
Formação, idiomas e habilidades, em pouquíssimas linhas
Formação: curso, instituição, ano de conclusão. Com alguns anos de experiência nas costas, esse bloco desce para depois da experiência.
Idiomas: o nível, e nada além disso. "Inglês avançado" é uma expressão que cada pessoa calibra de um jeito, e o nível inflado aparece na primeira reunião.
Habilidades: só o que você usaria amanhã sem consultar nada. Uma lista de trinta ferramentas com barrinhas de proficiência não informa, e as barrinhas são gráfico, que é uma das causas de falha de leitura logo abaixo.
O arquivo, e o que está de fato documentado sobre ele
Aqui começa a parte que tem fonte.
Um sistema de rastreamento de candidatos (ATS) é um banco de dados com um fluxo de trabalho em volta. Ele extrai o seu arquivo para campos, guarda o resultado e deixa a pessoa recrutadora buscar e filtrar.
A Greenhouse publica a lista de formatos que
aceita:
.doc, .docx, .pdf, .rtf e .txt, até 100 MB. Os dois formatos que você
provavelmente tem estão nessa lista. Não existe uma regra de mandar sempre em
Word, e não é na extensão do arquivo que o problema costuma estar.
O problema costuma estar na página seguinte da mesma documentação, que quase nenhuma página em português cita. A Greenhouse lista as causas conhecidas de uma leitura malsucedida. Três delas:
- Currículo enviado como imagem, em vez de documento.
- Letras com espaço entre elas. A documentação é específica sobre o motivo: para o olho o texto parece coeso, mas o parser não reconhece as letras separadas como uma palavra só e não consegue dar sentido ao dado.
- Gráficos, fotos e word art.
Repare que nenhuma dessas causas é sobre palavra-chave. Todas são sobre o arquivo.
O teste de vinte segundos: abra o seu currículo, selecione tudo, copie e cole num editor de texto simples, como o Bloco de Notas. O que sobrar ali é o que o software enxerga. Se sobrar pouca coisa, ou se as letras vierem picadas, você achou o problema antes de qualquer pessoa recrutadora.
Diagramação: uma coluna, pelo motivo certo
Um trabalho de 2025 sobre extração de currículos (arXiv:2510.09722) mediu que cerca de 20% dos currículos usam diagramação não linear, em várias colunas, que quebra a ordem normal de leitura de cima para baixo e da esquerda para a direita. No conjunto de currículos reais do estudo, um pré-processamento que leva a diagramação em conta elevou o F1 de extração de 0,919 para 0,959.
Traduzindo para o seu arquivo: duas colunas não fazem ninguém te reprovar. Elas degradam a extração. Uma data cai no campo errado, um cargo entra grudado no nome da empresa, e o seu registro fica torto dentro do banco de dados de quem contrata. Coluna única sai mais barato do que descobrir isso meses depois. Como a leitura automática funciona por dentro está em currículo e ATS.
O que é palpite
Essa é a seção curta, e é a que importa.
Uma parte enorme do que se escreve sobre como fazer um currículo é repetida com muita confiança e nenhuma fonte publicada atrás. Regras sobre o tamanho exato do documento. Números sobre quantos segundos alguém passa olhando. Porcentagens sobre o que uma máquina descartaria antes de um humano ver. Cada uma dessas aparece em dezenas de páginas em português, e nenhuma delas vem acompanhada de um estudo, de uma amostra ou de um método.
Não vou repetir esses números aqui, nem para corrigi-los. Repetir um número falso coloca ele na sua cabeça, e a correção some antes dele.
O que está documentado é o que você acabou de ler: os formatos que uma plataforma grande aceita, as causas de falha de leitura que o próprio fornecedor publica, e a medição de quanto a diagramação atrapalha a extração. É pouco. É pouco de verdade, e um guia honesto sobre currículo é bem menor do que os que você encontra por aí.
Depois de escrever
Leia em voz alta. Em toda linha que tem número, pergunte de onde veio aquele número. Se a resposta for "acho que era mais ou menos isso", apague o número e deixe o verbo. Se a dúvida é o que tirar antes de enviar, o que não colocar no currículo tem a lista, item por item.
O Rzume faz a primeira metade desse trabalho para você. Ele mostra a leitura do seu arquivo campo por campo, incluindo o que ele não conseguiu colocar em lugar nenhum, e depois lista os achados em ordem de gravidade. A leitura e a análise completa são gratuitas e não pedem conta. A reescrita só usa evidência que veio de você: ele pergunta, e se você não responder, a linha sai com o colchete visível, porque ele não inventa número.
Envie o seu currículo ou veja o que cada plano inclui.
Fontes
- Brasil, Lei nº 9.029, de 13 de abril de 1995, artigo 1º, texto consolidado.
- Brasil, Consolidação das Leis do Trabalho, Decreto-Lei nº 5.452/1943, artigo 373-A, inciso I, inserido pela Lei nº 9.799/1999.
- Greenhouse, Supported formats for resumes, cover letters and other candidate uploads, documentação do fornecedor.
- Greenhouse, Unsuccessful resume parse, documentação do fornecedor.
- Fuller, J., Raman, M., Sage-Gavin, E., Hines, K., et al., Hidden Workers: Untapped Talent, Harvard Business School Project on Managing the Future of Work e Accenture, setembro de 2021, página 22.
- Zhu, Yu, Chen, Zhou, Ji, Yang, Zhang, Hu e Liu, arXiv:2510.09722, submetido em 10 de outubro de 2025.
Todas as fontes acessadas em 6 de setembro de 2026.


