Currículo em inglês para vagas internacionais
O que sai do currículo brasileiro quando ele vira um CV em inglês: foto, idade, estado civil e CPF. A lei já proibia decidir por esses dados, aqui e na Europa.

Um currículo em inglês para uma vaga internacional não é o seu currículo brasileiro traduzido. A maior parte do trabalho é remoção, não escrita: sai a foto, sai a data de nascimento, sai o estado civil, sai o CPF, sai o endereço completo, sai o bloco "Dados Pessoais" inteiro. Sobra o que você fez, com datas, resultados e uma diagramação de coluna única.
A parte que ninguém diz é que esses campos nunca foram exigência. Nem aqui.
O que sai, e por que nunca precisou estar lá
A Lei nº 9.029/1995, no artigo 1º, proíbe "a adoção de qualquer prática discriminatória e limitativa para efeito de acesso à relação de trabalho, ou de sua manutenção, por motivo de sexo, origem, raça, cor, estado civil, situação familiar, deficiência, reabilitação profissional, idade, entre outros".
A CLT reforça no artigo 373-A, inciso I, inserido pela Lei nº 9.799/1999. É vedado "publicar ou fazer publicar anúncio de emprego no qual haja referência ao sexo, à idade, à cor ou situação familiar", salvo quando a natureza da atividade exigir isso de forma pública e notória. O inciso II proíbe recusar emprego pelos mesmos motivos.
Compare com o topo do currículo brasileiro padrão: sexo, idade, cor, estado civil, situação familiar. É quase o mesmo conteúdo. O empregador já não podia decidir por esses dados, e você os entregava mesmo assim. Isso é hábito, não requisito.
Fora do Brasil a lógica se repete por outras normas. A Diretiva 2000/78/CE, de 27 de novembro de 2000, estabelece o quadro geral de igualdade de tratamento no emprego e cobre religião ou convicções, deficiência, idade e orientação sexual. Origem racial ou étnica está em outra norma, a Diretiva 2000/43/CE de 29 de junho de 2000, cujo artigo 3(1)(a) alcança as condições de acesso ao emprego, incluindo critérios de seleção e condições de recrutamento.
Oferecer esses dados não te dá vantagem e ainda coloca a empresa numa posição incômoda: ela recebe, sem pedir, exatamente a informação que a lei diz que não pode pesar na decisão.
A foto merece um parágrafo próprio, porque é o item que mais gera resistência. Um retrato revela origem racial ou étnica, e a LGPD, Lei nº 13.709/2018, no artigo 5º, inciso II, classifica como dado pessoal sensível o dado "sobre origem racial ou étnica, convicção religiosa, opinião política, filiação a sindicato ... dado referente à saúde ou à vida sexual, dado genético ou biométrico". É um dado sensível anexado a um arquivo que vai circular por e-mail.
| Campo | Currículo brasileiro | CV em inglês |
|---|---|---|
| Foto | comum | fora |
| Data de nascimento | comum | fora |
| Estado civil | comum | fora |
| CPF e RG | comum | fora |
| Endereço | rua e número | cidade e país |
No topo, cinco itens resolvem tudo:
- Nome, do jeito que você assina.
- Cidade e país.
- Telefone com código internacional.
- E-mail, num domínio que você controla.
- Link do LinkedIn, só se o perfil estiver atualizado.
Se o assunto for visto, resolva em uma linha: "EU work authorisation" ou "requires visa sponsorship". É a única informação dessa família que o empregador precisa.
"Objetivo" vira um resumo do que você faz
O currículo brasileiro costuma abrir com uma frase de intenção. O currículo em inglês abre com uma descrição.
Antes:
Objetivo: atuar na área de tecnologia em empresa sólida, contribuindo com meus conhecimentos e buscando crescimento profissional.
Depois:
Backend engineer, 7 years, payments and billing. Led the migration off a legacy billing platform at a Brazilian retailer. English C1.
Falta um número na segunda versão, e ele não pode sair da minha cabeça. Tem que sair da sua. A pergunta a responder antes de escrever qualquer número é esta: quantas contas foram migradas, e em quanto tempo? Se você sabe, escreva. Se não sabe, deixe a linha vaga e verdadeira, porque a versão inventada volta na entrevista.
Formação, e o problema do Lattes
Um export do Lattes não é um currículo. É um registro de produção acadêmica, longo por desenho, que ninguém fora do Brasil sabe interpretar.
Leve quatro coisas: o nome do curso traduzido com o original entre parênteses, a instituição, a cidade e o país, e o ano de conclusão. Publicações, bancas e orientações entram apenas em candidatura acadêmica ou de pesquisa. Numa vaga de indústria, três linhas bastam.
Idiomas: A1 a C2, e nada acima do real
Use o Quadro Europeu Comum de Referência: A1, A2, B1, B2, C1, C2. Quem lê na Europa reconhece a escala.
"English: C1" é informação. "Inglês avançado" é uma palavra que cada pessoa calibra de um jeito. E um nível inflado aparece na primeira semana, numa reunião com quatro sotaques ao mesmo tempo.
O que o software de recrutamento faz, e o que ele não faz
Um sistema de rastreamento de candidatos (ATS) é um banco de dados com um fluxo de trabalho em volta: ele extrai o seu arquivo para campos, guarda o resultado e deixa a pessoa recrutadora buscar e filtrar.
A Greenhouse e a Ashby documentam rejeição automática, e nas duas a regra roda sobre as respostas do formulário de candidatura, não sobre o texto do currículo. Nenhuma das duas reprova por formatação, por diagramação ou por falta de palavra-chave. Esse é o fato que sustenta a categoria inteira, e quase nenhuma página em português cita.
Existe uma exceção documentada, e ela é grande demais para omitir. O estudo Hidden Workers: Untapped Talent, da Harvard Business School com a Accenture, ouviu mais de 8.000 trabalhadores e mais de 2.250 executivos nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Alemanha. Na página 22 ele registra que quase metade das empresas pesquisadas descarta automaticamente um currículo que apresenta um intervalo maior que seis meses entre empregos, com base nesse dado sozinho. O texto é direto sobre a consequência: a pessoa recrutadora nunca vê aquela candidatura, mesmo que ela atendesse a todos os requisitos.
Repare no que esse filtro lê. Uma data, não uma diagramação. Alguém configurou a regra, e o relatório observa que ela não consegue inferir a causa do intervalo, apenas prefere quem não tem nenhum. Nenhuma escolha de palavras vence um filtro que lê datas. Escrever bem o período de pausa ajuda a pessoa que lê depois, e é por isso que uma indicação interna continua sendo o caminho que contorna o filtro inteiro. O relato completo está em intervalo no currículo.
Sobre formato, a Greenhouse aceita .doc, .docx, .pdf, .rtf e .txt. O
medo do PDF tem uma versão verdadeira e ela é mais estreita: o PDF precisa ter
camada de texto. Um arquivo escaneado, ou salvo a partir de um print de tela, não
tem nada para extrair. É uma imagem com cara de documento.
O que o software lê, e o que ele não lê, está detalhado em currículo para ATS. Nenhuma ferramenta enxerga dentro do sistema de uma empresa específica. Quem vende uma porcentagem de compatibilidade está medindo contra a própria régua, e essa régua não é a do empregador.
Escrever em inglês quando o inglês não é a sua primeira língua
Existe um medo novo sendo vendido para você, o de que o seu texto "pareça escrito por IA". Há uma medição sobre isso, e ela é péssima para quem vende detectores.
Liang, Yuksekgonul, Mao, Wu e Zou testaram sete detectores de escrita por IA amplamente usados em 91 redações do TOEFL escritas por pessoas cujo inglês não é a primeira língua. A taxa média de falso positivo foi de 61,22%. Pelo menos um detector marcou 89 das 91 redações como geradas por máquina. Nas redações de alunos americanos do oitavo ano, os mesmos detectores acertaram quase tudo.
Esse estudo é sobre você, especificamente. Escrever com vocabulário mais contido, que é o que qualquer pessoa faz numa segunda língua, é exatamente o padrão que esses detectores confundem com texto de máquina. Não existe forma de passar num teste calibrado contra o seu jeito de escrever.
Então pare de tentar soar mais humano. A resposta real é escrever a partir de evidência que você consegue sustentar numa entrevista. Uma linha que você sabe explicar, com um número que você mesmo levantou, resolve o problema de credibilidade de um jeito que nenhum ajuste de estilo resolve.
Europass: quase sempre não
O Europass é o formato oficial de currículo da União Europeia. Foram 7,2 milhões de currículos baixados em 2026, 10,4 milhões de contas criadas e cerca de 24 milhões de visitas por ano.
Ele é útil, às vezes esperado, em profissões regulamentadas, em parte do setor público e em candidaturas acadêmicas. Para uma vaga comum de empresa, trabalha contra você: o layout é rígido, o documento sai longo e o recrutador já viu muitos iguais. Se você tem um Europass, trate-o como conteúdo e refaça a apresentação.
O que não muda
Num currículo em inglês, resultado concreto vence responsabilidade descrita. Número que você consegue explicar vence adjetivo. Coluna única, sem caixa de texto, sem informação que exista apenas no cabeçalho do arquivo.
E uma versão por vaga. Não porque um algoritmo conta palavras, mas porque a pessoa que lê procura o que ela mesma escreveu no anúncio, e quer achar isso nas dez primeiras linhas.
O Rzume mostra primeiro a leitura do seu arquivo, campo por campo, incluindo o que ele não conseguiu colocar em lugar nenhum, e depois lista os achados da análise, do mais grave ao menor. A leitura e a análise completa são gratuitas e não pedem conta. Na reescrita ele pergunta, e se você pular a pergunta a linha continua vaga, porque ele não inventa número.
Envie o seu currículo, veja o que cada plano inclui ou continue no blog em português.
Fontes
- Brasil, Lei nº 9.029, de 13 de abril de 1995, artigo 1º, texto consolidado.
- Brasil, Consolidação das Leis do Trabalho, Decreto-Lei nº 5.452/1943, artigo 373-A, incisos I e II, inseridos pela Lei nº 9.799/1999.
- Brasil, Lei nº 13.709/2018, Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, artigo 5º, inciso II.
- Conselho da União Europeia, Diretiva 2000/78/CE de 27 de novembro de 2000.
- Conselho da União Europeia, Diretiva 2000/43/CE de 29 de junho de 2000, artigo 3(1)(a).
- Greenhouse, Auto-reject, documentação do fornecedor.
- Ashby, Auto-reject applications, documentação do fornecedor.
- Liang, W., Yuksekgonul, M., Mao, Y., Wu, E., Zou, J., GPT detectors are biased against non-native English writers, arXiv:2304.02819, publicado em Patterns (Cell Press), julho de 2023.
- Fuller, J., Raman, M., Sage-Gavin, E., Hines, K., et al., Hidden Workers: Untapped Talent, Harvard Business School Project on Managing the Future of Work e Accenture, setembro de 2021, página 22.
- Comissão Europeia, Europass statistics summary.
Todas as fontes acessadas em 6 de setembro de 2026.


